terça-feira, 23 de agosto de 2011

Michael and Louise's Hopleaf Bar - Chicago




Se um dia voce visitar a incrivel cidade de Chicago e so' tiver tempo de ir em um bar pra tomar cerveja, o Hopleaf e' provavelmente a sua melhor opcao. Ele fica ao norte do centro da cidade (uptown), no numero 5148 da N. Clark Street e funciona impressionantes 365 dias por ano a partir das 3 da tarde. Pra quem quiser ir de metro (mais conhecido com "the El" em Chicago) deve pegar a linha vermelha e descer na parada Berwyn. De la sao seis quarteiroes a pe' ate' o bar.





Alem da enormidade de cervejas disponiveis e do cardapio bem selecionado, o lugar e' famosos pelos eventos e degustacoes que promove. Sao cerca de 40 torneiras com enfase em cervejarias americanas (principamente as regionais) e belgas. A lista de garrafas passa dos 250 rotulos.


Tive a oportunidade de conhecer esse templo da cerveja em novembro do ano passado, em uma noite de temperatura abaixo de zero, na iminencia de uma nevasca. O bar e' bem pequeno e aconchegante. Tem a parte terrea e um salao no segundo andar. As cervejas americanas que estao na pressao sao servidas em copos proprios do bar e as belgas sao servidas em seus respectivos copos originais.

O copo padrao do bar

A colecao de copos belgas

Sentamos no balcao mesmo e tive que comecar com uma Alpha King on tap, a melhor American Pale Ale do mundo, feita pela Three Floyds. Sempre que posso (agora nao posso mais pois estou de volta ao Brasil) eu abro os trabalhos com essa cerveja, que tem um drinkability estupendo e deve ser altamente procurada por todos os viajantes que passarem pelo meio oeste americano. A resenha sobre a Alpha King esta la atras nesse post: http://cervejasamericanas.blogspot.com/2010/06/three-floyds-brewing-co-melhor.html.


Pedimos uma tabua de queijos e nozes que estava excelente e continuei a noite com uma cerveja que eu estava procurando fazia um tempo (na epoca nao era disponivel em Washington), a New Belgium La Folie 2010.


Essa cerveja e' uma Sour Brown Ale da serie Lips of Faith, que tem uma "tiragem" menor que os rotulos disponiveis o ano inteiro. Fica maturando em barris de carvalho frances por cerca de 3 anos antes de ser engarrafada. Foi fortemente inspirada pela belga Rodenbach (que agora esta disponivel no Brasil). A edicao de 2010 ficou reconhecida nos foruns cervejeiros americanos por ter ficado mais azeda que as demais.

Coloracao marrom arroxeada e levemente translucida. A espuma e' bege clara e persiste por pouco tempo. A retencao por outro lado e' excelente nas laterais do copo.

Aroma potente, bem frutado e azedo ao mesmo tempo, com aquele "que" de acetona. Cerejas, uvas e maca-verde dominam. Me lembrou vinho do porto so' que sem aquele dulcor caracteristico.

O sabor ja comeca com uma bomba de azedo, nao ficando doce nunca. Muita acidez lactica com  notas frutadas entremeadas, lembrando muito maca-verde. No final ocorre uma transicao para compostos novamente frutados porem menos acidos, como cerejas e uvas vermelhas. O aftertaste deixa a boca salivando, pedindo o proximo gole.

O mouthfeel e' um pouco adstringente e o corpo mediano. A carbonatacao e' alta deixando o drinkability alto apesar da acidez.

Para os fas das sour beers (como esse que vos escreve) essa aqui e' um prato cheio. Parecidissima realmente com a Rodenbach Grand Cru, que e' sem nenhuma sombra de duvida uma das 5 melhores cervejas disponiveis hoje no Brasil.

Teor Alcoolico: 6.0%
IBU: 18
Preco: US$ 8.00 o copo.


Notas:


Aparencia: 8/10
Aroma: 9/10
Sabor: 9/10
Sensacao: 8/10
Conjunto: 9/10


Total: 8.6


E pra finalizar a noite mandei outra cerveja dificil de ser encontrada em Washington, a Salvation da Avery Brewing, la de Boulder, Colorado.
Ela faz parte da serie "Holy Trinty of Ales", cervejas fortes com tematicas religiosas,  da qual ainda fazem parte tambem a Hog Heaven Barleywine e a The Reverend Quadrupel.
A Salvation e' uma Belgian Golden Strong Ale nos moldes da Duvel.

Coloracao amarelo dourada escura, translucida, com algumas notas avermelhadas. Colarinho branco cremoso e abundante, como manda o estilo, com boa persistencia e excelente retencao.

Aroma forte com dominio dos esteres frutados do fermento belga: muito damasco, maca, pessego e banana. Um pouco de malte e biscoito e tambem spicy/peppery.

Sabor comeca adocicado com malte e um toque de caramelo. Notas frutadas comecam entao a aparecer, principalmente damasco, manga e pessego. No final o doce desaparece dando lugar a sabores mais "apimentados" e levemente amargos vindos tanto do lupulo como do proprio fermento.

Corpo mediano e final seco com algum alcool aparente. A carbonatacao, como nao poderia deixar de ser, e' bem alta e borbulhante.

No geral e' uma cerveja boa mas na minha opiniao ainda fica atras da Duvel, que e' o padrao do estilo. O fermento funcionou bem mas a achei um pouco doce demais no comeco e amarga demais no final, se e' que isso e' possivel hehe. Enfim, faltou mais equilibrio.

Teor Alcoolico: 9.0%
IBU: 25
Preco: US$ 8.00 o copo


Notas:


Aparencia: 9/10
Aroma: 8/10
Sabor: 7/10
Sensacao: 7.5/10
Conjunto: 7.5/10


Total: 7.8

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Bell's Oarsman Ale



Ja veterana aqui do blog, a excelente Bell's Brewing Company - do estado de Michigan, e' famosa por duas das melhores IPAs americanas e, por que nao, do mundo: a Two Hearted Ale (http://cervejasamericanas.blogspot.com/2010/03/bells-two-hearted-ale.html) e a Hopslam (http://cervejasamericanas.blogspot.com/2011/03/batalha-de-gigantes-bells-hopslam-vs.html).

Dessa vez vou escrever sobre uma de suas cervejas menos tradicionais, disponivel o ano inteiro, e que pode ser encontrada facilmente no meio oeste e regiao do atlantico norte dos EUA. E' a Oarsman Ale (cerveja do remador), uma "Pseudo" Berliner Weisse.


Pra quem nao sabe, este e' um estilo pouco alcoolico (cerca de 3%) feito com malte de trigo e originario da capital Alema. Tem a caracteristica marcante de ser azeda e refrescante (e' tomada com xarope doce de frutas). Sao poucas as cervejarias americanas que tentam a sorte e produzem uma quantidade representativa nesse "arriscado" estilo: alem da propria Bell's, temos a Dogfish Head com a Festina Peche (http://cervejasamericanas.blogspot.com/2010/03/dogfish-head-festina-peche.html), a New Glarus com a sua linha Unplugged e a The Bruery, com a Hottenroth.

Essa cerveja e' feita atraves de uma tecnica chamada de Sour Mash (Brassagem azeda), em que utiliza-se um pouco de mosto antigo contaminado com Lactobacillus para "ajudar" a fermentar o mosto novo. Pelo que eu li por ai, essa tecnica e' dificil de ser realizada por ser necessario que se retire o Oxigenio do mosto antes dele ir pro fermentador - caso contrario os microorganismos aerobicos acabam por dominar o Lactobacillus. 
No caso especifico da Oarsman, essa brassagem azeda e' feita com apenas uma parte da cerveja, e essa parte "contaminada" e' entao pasteurizada e readicionada a cerveja, para evitar que a fermentacao selvagem continue na garrafa.

A ideia por tras da realizacao da Oarsman foi a de se criar uma session ale (facil de tomar e com baixo teor alcoolico) refrescante que troque a intensidade de sabor pela finesse e delicadeza.  Como eu ja disse la em cima, ela leva uma boa parte de malte de trigo em sua composicao, um toque herbal de lupulos e e' fermentada com uma cepa de alta fermentacao/ale. 



Coloracao amarelo clara e levemente turva. Colarinho branco de um dedo que persiste relativamente bem. Parece bastante uma Pilsen nao filtrada. Aquela cor que,  em um dia quente, da sede so' de olhar.

Aroma pouco intenso e sem graca, com graos de trigo misturados com um estranho tom metalico e oxidado. O azedo e' pouco perceptivel, apenas algumas fracas notas citricas de limao.

Sabor igualmente sem graca, comecando com malte de trigo e pao que nao chega nem a ser doce. O que domina e' aquele gosto de cereal/grao nao maltados que eu particularmente abomino e que lembra ate' o milho das cervejas da Ambev. No meio do gole, transiciona para um azedo lactico muito fraco que mal consegue dominar o malte, apenas novamente um leve toque de limao. O final e' metalico e seco.

Corpo bem baixo e aguado, com carbonatacao alta. 

No geral uma cerveja bem ruim, que sem duvida melhoraria se estivesse mais gelada (devo te-la tomado a uns 8 graus C). Acho bem valida a ideia de se fazer estilos diferentes e tecnicas pouco utilizadas mas dessa vez o tiro saiu pela culatra. A composicao de maltes e' mal escolhida (poderia ser mais doce) e a parte azeda nao adicionou em nada para o conjunto. Faltou um pouco de corpo tambem. Diferentemente do Brettanomyces, acho que o azedo do Lactobacillus sp. nao funciona em baixas quantidades. Ou faz ela bem azeda ou nao faz. Me pergunto se nao peguei uma garrafa ruim naquele dia pois a achei meio oxidada e metalica.

Teor Alcoolico: 4.0%
Preco: US$ 4.00 no bar (pelo menos e' barata).




Notas:

Aparencia: 7/10
Aroma: 3/10
Sabor: 4/10
Sensacao: 4/10
Conjunto: 4/10

Total: 4.4

 




segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Stillwater Artisanal Ales - Cellar Door

A Stillwater Artisanal ales e', como a Pretty Things Beer and Ale Project, uma cervejaria Gipsy mais ou menos baseada em Baltimore, pertinho de Washington.


O dono e unico funcionario, Brian Strumke e' considerado um visionario e ganhou do Ratebeer o titulo de segunda melhor nova cervejaria do mundo - agora em 2011.  Assim como os dinamarqueses da Mikkeller, ele vai de cervejaria em cervejaria "alugando" tanques vazios e faz suas proprias receitas em quantidades pequenas. Sua inspiracao sao os estilos belgas - inclusive tendo produzido algumas de suas cervejas naquele pais. Devido a sua "capacidade" volumetrica reduzida, Strumke ousa bastante em suas receitas, que muitas vezes fogem aos estilos tradicionais, com abuso na adicao de especiarias e de ingredientes peculiares, como flores.

Cheguei a tomar algumas de suas cervejas la nos EUA e gostei muito. Elas sao bem aromaticas, inovadoras e vao muito bem no pareamento com a alta cozinha.


Cellar Door

Considerada por muitos estudiosos como a expressao foneticamente mais bonita da lingua inglesa (Se voce assistiu o filme Donnie Darko deve-se lembrar dessa historia), Cellar Door (porta do celeiro) da o nome para uma Saison da Stilwater.
Brian quis uma cerveja bela e "clean" para inaugurar sua linha de cervejas de verao, portanto mais leves e com maior drinkability do que suas parceiras sazonais de inverno. Mas apesar de mais leve, ele nao quis que ela perdesse em complexidade. Portanto fez sua receita com maltes pale e trigo alemaes, lupulou-a com um blend de Citra e Sterling e a terminou de temperar com salvia branca. Tudo isso foi entao fermentado por sua levedura de saison para um final bem seco.



Coloracao dourada escura e levemente turva. Apresenta espuma cremosa que persiste por pouco tempo, mas com boa retencao no copo.

Aroma interessantissimo altamente derivado do fermento e especiarias. Muitas notas citricas, apimentadas, erva cidreira, salvia, alecrim e um pouco de madeira.

O sabor inicial e'  um frutado refrescante e levemente azedo/citrico, com notas de uvas verdes, grapefruit, pera e maca-verde. Segue com mais fenols de fermento e especiarias que dominavam o aroma: salvia, alecrim e coentro. Termina entao um pouco mais adocicada com notas de pao e biscoito vindas dos maltes. Lupulos citricos americanos sao pouco perceptiveis e as especiarias continuam no aftertaste para contrabalancear o dulcor.

O mouthfeel e' bem seco, com baixo corpo e alta carbonatacao.

No geral uma boa e complexa Saison, um dos estilos mais abertos a interpretacao de seus criadores. Essa aqui e' um dos melhores exemplos norte americanos que eu tomei (inclusive melhor e mais equilibrada que a Saison du Buff - http://cervejasamericanas.blogspot.com/2010/09/saison-du-buff.html).

Nao chega a ter aquela deliciosa pegada de fermentacao selvagem presente em alguns exemplares do estilo, porem a boa combinacao de lupulos e especiarias substituem o funky selvagem primorosamente. Queria ter mais acesso a cervejas como essa por essas bandas.

Teor Alcoolico: 6.6%
Preco: US$ 7.00 a taca, no bar.


Notas:


Aparencia: 8/10
Aroma: 8/10
Sabor: 9/10
Sensacao: 8.5/10
Conjunto: 9/10


Total: 8.5

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Three Floyds / Dogfish Head - Poppaskull


 

Na minha visita a cervejaria Three Floyds no final do ano passado (http://cervejasamericanas.blogspot.com/2011/03/visita-three-floyds.html) pude comprar essa cerveja rara, uma colaboracao entre a propria e a Dogfish Head.
A primeira cerveja de colaboracao entre as duas cervejarias se chamava Popskull, e foi feita em Indiana, na cozinha da 3F. Era uma lager escura de alta gravidade que tinha sido maturada com pedacos de madeira Palo Santo (usada em uma das cervejas da DFH, a Palo Santo Marron).
Ja a Poppaskull, a segunda colaboracao, foi feita nas dependencias da cervejaria de Delaware e lancada para o mercado em novembro de 2010. E' uma strong golden ale que leva adicao de cardamomo e e' fermentada com uma levedura belga de alto poder de fermentacao. Um terco de seu volume foi entao maturado por 6 meses em barris de carvalho que continham brandy e readicionado aos outros dois tercos antes do engarrafamento, este feito em garrafas de 750 ml.




Coloracao amarelo-dourada com notas amarronzadas, lembrando mel silvestre. Transparencia levemente turva. O colarinho e' branco com espessura de 1 dedo e tem boa persistencia e retencao no copo.

Aroma muito intenso e temperado. Muitas coisas misturadas aqui mas o cardamomo sem duvida domina.  Em segundo plano um pouco de malte, laranja, grapefruit e esteres de fermento belga, com notas frutadas e apimentadas.

O sabor se inicia bastante doce com malte e notas de mel, progredindo entao para o cardamomo, laranja e toques de limao. Finaliza bastante seco e spicy com os compostos de fermento belga associados a um amargor moderado. O alcool e' bem perceptivel no palato. Aftertaste continua com o cardamomo e as especiarias.

O corpo e' mediano e a carbonatacao extremamente alta, lembrando champagne e contrabalanceando um pouco a percepcao do alcool. Drinkability mediano.

Seu principal problema foi o uso excessivo do cardamomo que dominou muito o sabor (cervejas com especiarias tem resultados sabidamente imprevisiveis, e por esta ter sido apenas uma leva - edicao limitada - as falhas acontecem sem poder ser corrigidas com a boa e velha tentativa e erro). Tambem nao consegui perceber nada do carvalho ou do brandy.

No geral, novamente uma cerveja interessante vinda dessas duas inovadoras micro-cervejarias americanas (nano no caso da 3F). Me lembrou em muitos momentos uma Duvel com especiarias. Nao e' nem de longe uma obra prima mas valeu a experiencia.

Teor Alcoolico: 9.5%
Preco: US$ 15.00 a garrafa de 750 ml.


Notas:


Aparencia: 8.5/10
Aroma: 8/10
Sabor: 8/10
Sensacao: 7/10
Conjunto: 7.5/10


Total: 7.8

terça-feira, 19 de julho de 2011

Southern Tier - Pale

A cervejaria Southern Tier de Lakewood NY ja passou varias vezes aqui no blog, principalmente com as suas Stouts. E' uma cervejaria de primeira, sem duvida uma de minhas favoritas, e produz a MELHOR Pumpkin Ale do planeta, a Pumpking.

Um tempo atras eu tomei a Pale, que e' o nome da American Pale Ale deles. Tomei ela on tap, fresquinha em um happy hour em Washington. Como o rotulo abaixo diz, e' feita com dois tipos de malte e duas variedades de lupulos (nao consegui descobrir quais, mas provavelmente Cascade, Simcoe, Amarillo ou Centennial). Aqui vao minhas impressoes:


No copo tem uma aparencia extremamente clara, dourada e cristalina, com minimos hints avermelhados. Esperaria que fosse mais escura e turva...essa aqui lembrou a cor de uma Helles lager. O colarinho e' cremoso e branco como marfim, deixando retencao do tipo "teia de aranha" no copo. Apetitosa.

O aroma inicial e' de cereal, graos e um pouco de caramelo. Logo e' sobrepujado por notas intensas de citrico, limao e grapefruit que dominam completamente o malte.

O sabor novamente se inicia com malte, pao e graos e logo e' dominado pelos lupulos extremamente citricos com notas de grapefruit e tangerina. Tambem percebo mais pro final varios gostos bem frescos de grama e capim recem cortados apos uma chuva noturna. O amargor e' alto para o estilo porem baixo para o meu paladar. Final seco como deve ser. No balanco malte x lupulo o segundo ganha a "batalha".

Corpo medio a alto para o estilo (ela flerta com a designacao de IPA) acompanhado de um mouthfeel e drinkability absurdos. Tomei um copo de 400 ml em menos de 10 minutos brincando. A carbonatacao tambem e' de media a baixa. Visto o enorme e delicioso sabor, o alcool some  na cerveja que aparenta ter uns 3.5% abv ao inves dos 6.1%.

No geral e' uma deliciosa, saborosa e refrescante cerveja que tem GOSTO de cerveja e nao de agua. Cervejas do tipo American Pale Ale ainda nao sao feitas no Brasil (zero representantes na ultima Brasil Brau!) e eu nao sei bem o porque - na minha opiniao e' talvez o estilo que mais facilmente poderia "converter" os bebedores de light american lagers para o mercado das cervejas especiais.
E a Pale da Southern Tier e' um dos melhores exemplos desse estilo que eu ja tomei. Acho-a ainda melhor que a Sierra Nevada Pale, quase chegando no nivel da Three Floyds Alpha King, essa sim a melhor do mundo no estilo.

Teor Alcoolico: 6.1%


Notas:


Aparencia: 8.5/10
Aroma: 8/10
Sabor: 8.5/10
Sensacao: 9/10
Conjunto/Estilo: 9/10


Total: 8.6

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Visita a Flying Dog




A maioria dos consumidores de cervejas especiais aqui no Brasil ja conhece a Flying Dog. Grande parte dos seus rótulos ja estiveram disponíveis no pais ate' que, no final do ano passado, uma historia polemica envolvendo a importadora e suspeitas de alteração da data de validade / frescor, ocasionou a interrupção das importações ate segunda ordem. As ultimas cervejas que vieram para o Brasil expiraram sua validade ha pouco menos de 1 mes, e portanto, todas as cervejas daquele lote nao podem mais (em teoria) serem comercializadas no pais.

Fachada da cervejaria em Frederick Maryland

A Flying Dog na verdade e' originaria do Colorado (comecou como um brewpub em Aspen) e foi fundada por George Stranaham, cervejeiro, alpinista e maluco de plantão. Pra quem nao sabe a historia, esse curioso nome foi criado em 1983 em uma das expedições de alpinismo amador em que Stranaham e sua trupe conseguiram, apos muito sacrificio, escalar a  montanha K2 nos Himalaias, a segunda mais alta do planeta. Logo apos a expedicao, os aventureiros bebiam em um bar de hotel no Paquistao quando Stranaham gostou muito de um quadro na parede do bar que tinha um cachorro com asas. Dai criou a "filosofia Flying Dog" (a cerveja so' veio a aparecer em 1990) que e' algo como: "Todos sabemos que cachorros nao voam, mas ninguem disse a essa criatura que ela nao podia voar, assim como ninguem disse ao grupo de alpinistas que nao poderiam escalar o perigoso K2. E' impressionante o que se pode alcancar na vida se ninguem lhe diz que voce nao pode".

George Stranaham, em foto tirada do site da Flying Dog

A cervejaria e' ainda conhecida por sua relação com o escritor Hunter S. Thompson, um dos maiores usuarios de drogas psicoativas de que se tem noticia e autor do famoso livro "Medo e Delirio em Las Vegas" (que virou um filme estrelado pelo Johnny Depp). Thompson era muito amigo de Stranaham e influenciou o Modus Operandi da companhia, bem como diversos nomes de cervejas (como a Gonzo Imperial Porter, nomeada em homenagem ao estilo de jornalismo criado pelo escritor).

Hunter S. Thompson na capa da Rolling Stone

E' também da relação com Thompson que surgiu a ideia de que todos os seus rótulos fossem desenhados por Ralph Steadman (http://www.ralphsteadman.com/), assiduo colaborador do escritor em todos os seus livros. Steadman tem um estilo visualmente agressivo e muito peculiar de desenhar, e todo mundo que olha o rotulo de uma cerveja da Flying Dog pela primeira vez fica muito impressionado, principalmente pela absurda falta de criatividade nesse “fundamento” aqui no Brasil.

Ralph Steadman

No final do ano passado, em meio a toda essa polemica envolvendo a importação, tive a oportunidade de visitar a cervejaria la em Frederick, estado de Maryland, pertinho de Washington DC. Alias descobri que a mudança do Colorado para Maryland aconteceu porque nao havia muito espaço fisico para expansão na fabrica antiga e, ao estudar o mapa de vendas, percebeu-se que a popularidade e volume na região do nordeste americano era altissimo. Isso ainda coincidiu com o fechamento de uma grande cervejaria com equipamentos e instalações modernas em Maryland que iria ficar desativada. Pesando todos esses fatores, bem como a concorrência ferrenha no Colorado, em 2009 o pessoal resolveu pegar os “cachorros” e se mudaram para essa nova fabrica que vem funcionando ate' o presente momento.

Apos a mudança de estados, a cervejaria ficou fechada a visitacoes do publico por um problema legislativo: O estado de Maryland simplesmente proibia a degustação de mais de uma dose de bebida alcoólica em qualquer tipo de tour de cervejaria, o que inviabilizava totalmente a pratica da mesma. A propria Flying Dog ja esta se mobilizando para mudar essa lei mas ate' quando eu estava nos EUA as visitacoes ainda se encontravam suspensas (UPDATE: acabei de descobrir que elas foram retomadas semana retrasada no dia primeiro de julho!)

A minha sorte foi a que durante alguns eventos cervejeiros aos quais eu compareci durante o ano na região de Washington, acabei conhecendo o JT Smith, que faz parte de relações publicas da cervejaria. Através dele, consegui marcar uma visita “extra-oficial” em um domingo quando a fabrica estava fechada e somente as leveduras estavam trabalhando. Foi um tour particular que ele deu pra mim e pra minha tia, que aconteceu mais ou menos assim:


Chegamos no domingo na hora do almoço sabiamente instruidos a trazer alguns quitutes, ja que eles nao tem restaurante ou comida no local. Assim fomos munidos de queijos, paes, frios e pates. Chegando la (apenas 15-30 min ao noroeste do centro de Washington) encontramos o JT e fizemos uma degustação das cervejas disponíveis on tap (e de graça!), ali mesmo no tasting room (que pela lei ainda nao podia ser usado). Segue a invejável taplist:

Doggie Style Pale Ale
Old Scratch Amber Lager
Tire Bite Golden Ale
Snake Dog IPA
Road Dog Porter
In-Heat Wheat Hefe Weizen
Gonzo Imperial Porter
Double Dog DPA
Horn Dog Barley Wine
Raging Bitch Belgian Pale Ale (cerveja do vigesimo aniversario da FD)
K-9 Winter Ale (sazonal de inverno)
Wild Dog Coffee Stout
Barrel Aged Gonzo Imperial Porter (envelhecida no Barril de Carvalho)
Uma single Hop DIPA feita com um lúpulo novo chamado Eldorado (versao experimental)




Enfim, ficamos tomando, comendo e conversando por um bom tempo ate' que a tour começou


Degustacao antes do tour

O tasting room vazio

O tasting room e' todo decorado com posteres dos rótulos da FD e pode-se ver algumas das medalhas do World Beer Cup e do GABF na parede, inclusive o certificado de melhor microcervejaria americana do ano de 2009:


Passamos primeiro pela parte administrativa com uma grande sala de reuniões com as paredes todas decoradas com desenhos do Ralph Steadman, seguida de um corredor com uma coleção de latinhas de cervejas antigas. A partir dali duas portas de metal levavam ao interior da cervejaria:



uma das salas de reunioes mais legais que eu ja vi


Na parte “quente” da cervejaria fica a maltaria e a cozinha, com os toneis na parte elevada em uma plataforma de metal. E' muito moderna e toda de aço inox. O Brew Kettle tem capacidade de 50 barris e os controles de transferencia e de temperatura sao todos eletrônicos:













Seguimos para a sala “fria” com todos os fermentadores e alguns barris de carvalho, feitos para experimentação A fabrica e' gigantesca com muitos fermentadores, alguns deles a todo vapor com a mangueira borbulhando no balde:




Fomos entao a ala de engarrafamento e empacotamento, também muito moderna e igualmente gigante. Sao pilhas e pilhas de caixas de cerveja empilhadas, esperando o transporte do dia seguinte:




Seguiu-se entao o momento mais epico da visitacao, quando o JT me ofereceu um pouco de Extra Special Gonzo: ele simplesmente retirou um prego de um barril de carvalho e me colocou um copo da Gonzo Imperial Porter inoculada com cepas de Brettanomyces e Lactobacillus, "fresquinho" (na verdade ja estava no barril por uns 2 anos) e sem carbonatacao. Os aromas azedos da fermentação selvagem logo encheram o ar e apesar de extrema, a cerveja estava deliciosa.

Extra Special Gonzo com Brettanomyces no barril por 2 anos!

Deu pra perceber que a Flying Dog e' uma cervejaria muito seria e irreverente ao mesmo tempo. Seus funcionarios sao muito simpáticos e fazem de tudo para agradar. Realmente e' uma pena que nao tenhamos mais essa cervejas por aqui, pelo menos por enquanto.



E so pra manter a tradição, segue a minha avaliação da Wild Dog Coffee Stout que eu tomei no tasting room aquele dia:



Aparencia e' marrom bem escuro, quase totalmente negra. A espuma e' marrom avermelhada e nao durou muito, deixando um anel na superficie. Retencao nas laterais foi nula. Cerveja de aparencia bem licorosa e pesada.

O aroma e' bem centrado no cafe' om notas de espresso parecendo logo de cara. Tambem pode-se sentir algumas notas de chocolate, baunilha e alcool. Mas parece mesmo um copo de cafe' gelado.

Na boca a cerveja segue o aroma com o cafe' e um pouco de chocolate dominando o malte escuro, que se mantem sempre em segundo plano. O aftertaste remete novamente ao cafe' com um toque adocicado de melaco.

O corpo e' surpreendentemente mediano, com mouthfeel aveludado e sem nada daquele adstringente percebido em muitas cervejas de cafe'. Carbonatacao media a baixa, elevando ainda mais o drinkability que na minha opiniao e' o ponto mais forte dessa stout.

Geralmente nao gosto muito de stouts com o corpo mais leve mas gostei da manobra para deixar o cafe' se sobressair um pouco. Uma bela cerveja que deveria ser produzida em maior quantidade.

Teor Alcoolico: 8.0%
Preco: degustacao

Foto retirada do blog BEERsimple

Notas:


Aparencia: 7/10
Aroma: 8.5/10
Sabor: 8/10
Sensacao: 9/10
Conjunto: 8/10


Total: 8.1